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Visita Íntima ao Tempo

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Ela aprendeu a medir o tempo não pelos ponteiros do relógio, mas pelo ritmo das visitas. Antes, o tempo era algo distraído: passava enquanto o feijão cozinhava, enquanto o sol atravessava a janela da cozinha, enquanto a vida acontecia sem pedir licença. Depois da prisão do filho, o tempo ganhou grades. Ficou dividido em antes da revista íntima e depois da revista íntima; antes do portão de ferro e depois do portão de ferro; antes do “pode entrar” e depois do “acabou a visita”.

Todas as quartas-feiras ela acordava mais cedo, mesmo quando a visita era no sábado. O corpo se antecipava à dor como quem se prepara para um golpe conhecido. Separava a roupa “permitida”, aquela que não ofende a moral da administração penitenciária, como se a moral ali ainda tivesse algum valor real. Nada de sutiã com metal, nada de blusa clara demais, nada de dignidade em excesso. A prisão não gosta de exageros, sobretudo os humanos.

Na fila, ela observava as outras mães. Cada uma carregava um tipo diferente de culpa — nenhuma delas jurídica, todas morais. Culpa por não ter visto antes, por ter visto e não conseguido impedir, por ter acreditado que “com meu filho isso não acontece”. A prisão, ela percebeu com o tempo, não começa no portão principal. Começa na ingenuidade.

Enquanto esperava, refletia sobre a liberdade. Sempre achou que liberdade fosse ir e vir, falar o que se pensa, escolher o caminho. Descobriu, ali, que liberdade é algo mais íntimo e cruel: é poder ir embora quando se quer. Ela podia ir embora. O filho, não. Mas, paradoxalmente, sentia que era ela quem estava presa àquele ritual. O menino, trancado, ao menos não tinha escolha. Ela tinha — e mesmo assim voltava toda semana. A liberdade, pensava, às vezes pesa mais que as correntes.

Quando finalmente o via, do outro lado da mesa de plástico, notava como o tempo agia diferente sobre os dois. Nele, o tempo cavava. Emagrecera, o olhar endurecido, a fala econômica, como se cada palavra custasse algo. Nela, o tempo alargava. Aprendera a ouvir mais do que falar. Antes dava conselhos; agora oferecia silêncio. Antes queria respostas; agora aceitava perguntas.

— Como você está, mãe?
— Estou — respondia. E naquela palavra cabia tudo.

Falavam pouco do passado e quase nada do futuro. A prisão é um lugar onde o futuro é sempre condicional, depende de decisões que não são suas, de juízes que nunca olharam nos seus olhos, de leis escritas longe dali. Ela aprendeu que o sistema penal não trabalha com pessoas, mas com números, processos, prazos. O sofrimento humano é apenas um efeito colateral tolerável.

Em uma dessas visitas, enquanto observava o filho comer apressado o que ela levara, pensou na crueldade do tempo. Fora ela quem o ensinara a andar, a falar, a atravessar a rua. Agora assistia, impotente, ao tempo ensinar ao filho outras lições: desconfiança, dureza, sobrevivência. O tempo, ali, não educava — embrutecia.

Com o passar dos meses, começou a perceber algo incômodo: havia presos mais livres que muita gente do lado de fora. Homens que, apesar das grades, mantinham uma espécie de integridade interior. E havia pessoas “livres”, na rua, completamente aprisionadas por vícios, ideologias, medos, conveniências. A prisão apenas tornava visível aquilo que a sociedade finge não ver.

Ela também passou a observar os agentes penitenciários. Alguns eram duros por profissão, outros por cansaço, alguns por prazer. Via neles o mesmo mecanismo que corroía os presos: o ambiente moldando o caráter. Pensou, muitas vezes, que aquele lugar não ressocializava ninguém. Apenas reciclava a violência em formas diferentes. Uns aprendiam a sobreviver como presos. Outros, como carcereiros. Poucos escapavam ilesos.

Certa vez, ao voltar para casa após uma visita particularmente silenciosa, sentou-se sozinha na sala e chorou não pela situação do filho, mas por uma constatação amarga: a prisão revelava a verdade sobre a vida. Que somos frágeis, substituíveis, esquecíveis. Que o tempo não cura nada — apenas nos acostuma. Que a liberdade não é um direito garantido, mas uma concessão instável.

Ainda assim, continuava indo. Não por esperança ingênua, mas por um tipo mais duro de amor. Um amor sem romantismo, sem promessas de redenção. Um amor que sabe que o filho errou, que a cadeia é consequência, mas que se recusa a abandoná-lo ao moedor de carne institucional.

Com o tempo, entendeu que aquelas visitas também a transformavam. Tornaram-na menos arrogante, menos apressada em julgar, menos iludida com discursos fáceis sobre bem e mal. Aprendeu que a vida não é uma linha reta, mas um corredor estreito cheio de portas trancadas — e que qualquer um pode parar do lado errado delas.

Na última visita antes da sentença definitiva, o filho segurou sua mão por mais tempo. Não pediu nada. Não prometeu nada. Apenas disse:

— Obrigado por vir.

Ela saiu dali com uma estranha serenidade. Compreendera, enfim, que não podia libertar o filho das grades, nem o mundo de sua brutalidade. Mas podia preservar algo raro: a capacidade de amar sem negar a realidade. E isso, pensou enquanto o portão se fechava atrás dela, talvez fosse a forma mais honesta de liberdade que ainda restava.

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